Varanasi - 19/09/08 - 13h

Olá pessoal, chegamos de uma longa viagem de trem, cansados, tomamos nossos banhos, nos alimentamos bem……… e agora transmito algumas reflexões minhas…..

Pela diversidade da Índia eu percebo a grandiosidade de Deus!
Seja pelas montanhas gigantes, pelo povo, pela sabedoria, e pelos contrastes e convivência de tantas coisas aparentemente contraditórias…

Aliás, é o espelho de cada um de nós……. somos assim sujos e ao mesmo tempo lindos!

Aqui a mão é inglesa e a chave se fecha abrindo e se abre fechando…… o belo está escondido em grande parte e o sujo aparente……….. se nós ocidentais nos apresentamos limpos e organizados por fora, escondemos a grandiosidade de nossa sujeira interior…… desde uma personalidade forte (que os indianos tem mais fraco), a astucia, a arrogância, a auto-importância em demasia, o egocentrismo, e como conseguimos ainda fazer tudo isso funcionar dentro de nós? Analogicamente falando, como a Índia consegue conviver e sobreviver baixo a esta aparente sujeira, hábitos simplistas……..muita pimenta….. e a mistura de bichos……?

O indiano tem a pimenta na comida física, nós temos a pimenta em nossa busca de emoções ….. gostamos de sentir arder a Alma, a Essência…..

Através dos olhos dos indianos percebemos mais de perto sua simplicidade de Alma, e o grande valor humano que possuem….. a humildade, a tolerância, o perdão, o não julgamento, a aceitação e a devoção…….. enquanto nós ocidentais somos orgulhosos, tolerancia zero, sem perdão, com rancores ….e uma grande devoção às posses, às aparências………

Quem está certo? O oriente Índia ou o ocidente Brasil?

Ambos estão certos….. ambos são a manifestação da Divindade, de Deus, da totalidade, do Absoluto, do Pai……

E na busca pelo caminho do meio é que devemos aprender com eles humildemente, sem a crítica e julgamento, com a aceitação…… com a alegria espontânea, com a devoção, com a sabedoria, com o respeito aos animais, tolerância com o próximo, com a a-irritabilidade (contrário da irritabilidade)….. com o ser o que É…

Percebemos um rato correndo aos nossos pés numa viagem de trem e assustamos, temos rechaço, medo, nojo…….e quando o rato do ego corre a nossa frente em nosso cotidiano, aceitamos e toleramos sem problemas…….então fica fácil comprender e amar o indiano…….. vemos uma mulher carregar um fardo do tamanho e formato de uma cama na cabeca e ainda carregar um bebê em seu quadril……… e ela passivamente faz isso……e temos dó e compaixção dela……. e quando carregamos um fardo profissional ou laboral, com peso em excesso e ainda carregamos nossos filhos com mimos e excessos de cuidados…. passivamente? A nossa essencia é que tem esta compaixão, mas o ego naum, ele quer sempre mais e mais……..

O descondicionamento na Índia eh uma das principais lições…….. e o auto-conhecimento tb.

Quando vemos um senhor já de certa idade carregando 2 malas (nossas) super grandes e pesadas um sobre a outra na cabeça e no seu magro ombro uma super bolsa pesada….. e subindo rampa, escada…….. e alguns de nós expressavamos: ” nossa, deixa que carregamos, que judiação…” , em resposta o prof Andres disse algo assim, com suas palavras: deixa, é seu trabalho, isso não é humilhante pra ele, é bom, está cumprindo seu papel e ganhando seu ganha pão…. e podemos refletir: ” E nós quando vemos o fardo que outro carrega, seja profissional, familiar etc? E quando temos que carregar nossos fardos pesados, não temos que ter a dignidade deste homem e naum reclamar? Aquele homem carregava a sua cruz com dignidade assim como a mulher e nós o que fazemos? reclamamos? achamos que é injusto?

A grande lição é que devemos aceitar com comprensão o que a vida nos apresenta….. e se queremos mudar, façamos nossa insignificante mudança em nossa própria vida….

Amemos os Indianos……. e aprendamos com eles………. e da mesma forma podemos reconhecer o amor deles na expressão da Mãe Índia, da Totalidade e podemos sim até ensinarmos aos indianos melhores padrões de higiene, mas isso fará jus ao que eles podem nos ensinar quando nos ensinam a higienizar nossas personalidades e mentes?

Agradeço a Deus a vida que tenho…
Agradeço a Deus pelo corpo e mente que tenho,
Agradeço a Deus pela liberdade que tenho….
Agradeço a Deus pela Felicidade que ele nos dá……gratuitamente…….
seja expressado por um Sadu que nos dá 2 balinhas doces a beira de um templo numa caverna ou a banana que um Swami nos dá humildemente em seu aposento….. ou na paisagem majestosa quando serpenteamos no amago dos Himalayas, ou quando navegamos no Rio Ganges (Ganga) em suas corredeiras…….. a felicidade de ouvir uma meninha indiana que sobe na mesa do trem pra cantar pra nós, ou quando nos proporciona água quente para um bom banho depois de uma jornada longa empoeirada, de muito suor, em locais de pouca higiene……. na felicidade de termos tido ótimos guias e motoristas, pela felicidade de quem inventou a buzina (pois sem ela estaríamos encrencados) e pela felicidade de poder falar, escrever, e transmitir a todos nossos parentes, amigos e conhecidos esta maravilhosa experiência……….
Agradeço a Deus por cada um do grupo que me deu um remédio quando precisei, que me fez companhia quando me senti só, que riu comigo, que me ouviu, que me ensinou, que carregou minha bagagem pesada, que confidenciou suas particularidades, aquele que se sacrificou, renunciando seu desejo particular em troca do interesse do grupo, que me emprestou uma roupa limpa, ou alguma coisa que esqueci de trazer, …… aquele que se emocionou abrindo seu coração quando leu meus poemas, aquele que posou para uma linda foto, ou aquele que me fotografou……que teve tolerância com minhas manias, que não me julgou quando me excedi em algum ego…… e que me amou na expressão de um carinho…… que sorriu pra mim, ao me proporcionar o poder de ser testemunha quando abriu seu coração ao chorar, na expressão de sua emoção devocional, de uma reflexão, diante de um Puja, de um Sadu…..
Faço a voz do grupo ……..
Agradeço pelo prof, líder e irmão Andrês que no seu entusiasmo, capricho, simplicidade dedica gde parte de seu tempo, de sua saúde, de seu sono, de seu físico, de sua energia mental, de sua constante viligia pelo grupo……
Agradeco em nome do coletivo grupo………obrigado por buscar me compreender, na minha debilidade, na minha incapacidade, na minha falta de disciplina, na minha falta de tolerância e pelo meu eventual mal humor…….

Namastê,
Saulo Lalli.

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4 Comentários »

  1. MARY disse,

    19 de Setembro de 2008 @ 17h 34m

    Saulo fui tomada por grande emoção a forma com que vc. descreveu esta viagem. Senti uma vontade irrefreável de abraçá-lo.

    Posso imaginar a grandiosidade da emoção que te envolve neste momento e partilho dela permitindo que também eu seja envolvida e assim adentro neste momento mágico que posso dizer: de nossas vidas.

    Incorporo em meu ser essas experiências vividas e reconhecidas permitindo que elas sejam ferramenta de transformação interior que tem como lenitivo o reconhecimento da grandiosidade do CRIADOR e sobre o brilho desta revelação, aprendermos a ser AGRADECIDOS.

    É através desse reconhecimento que lutaremos com mais afinco para sermos pessoas melhores, para despertarmos nosso real ser e assim nos sentirmos mais próximos desta GRANDIOSIDADE.

    Uma vida a dois para ser verdadeira precisa ser compartilhada mesmo que em posições diferentes. Eu estou aí com você nesta viagem, de alma, mas meu corpo precisou estar aqui para mantermos nossa sobrevivência, pois nossas bases estão aqui e a Índia para nós não é para sempre. Há que se retornar e tudo precisa estar funcionando até lá.
    Esta é a vida à dois. Um dia poderemos estar em invertidas posições e confio que vc. estará pronto para cumprir este papel.

    Que os frutos desta experiência sejam doces e que possamos levar um pouco dessa doçura à todos que de nós se acercarem.

    Me fundo em vocês em rogo as bençãos de Deus.

    Mary

  2. Adriana disse,

    25 de Setembro de 2008 @ 19h 26m

    Saulo, quase sem palavras, venho parabenizar pelo modo como identificou a ìndia com toda sua beleza pitoresca e que muitos ainda não conseguem enxergar. Só conheço a Índia pelo coração e imagino a emoção de vocês ao vivenciar a grandiosidade desse país tão rico e tão pobre ao mesmo tempo.
    Com certeza, ninguém voltará dessa viagem sendo a mesma pessoa que era, pois a energia, os ensinamentos, as passagens deixarão marcas inapagáveis.
    Parabéns ao grupo e que Deus os iluminem a cada passo.
    NAMASTÊ

  3. Mírian Rebeca disse,

    29 de Setembro de 2008 @ 18h 07m

    Saulo, sugeriu-me através do Skype, já aqui no Brasil, que lesse este texto, mas eu já o havia lido. E foi ele que me inspirou a te perguntar: “Crês que precisamos de coisas assim de impacto para termos a verdadeira noção do que é a vida?”
    Quando da outra vez li tuas palavras, pensei, como somos limitados, anestesiados, adormecidos diante de nossas vidas. Precisamos de vivências que nos acordem, nos sacudam e nos façam, não ter pontos-de-vistas diferentes, mas passarmos a ser o próprio “ponto” e assim descobrirmos nossa grandeza e nossa pequenez.
    As experiências são tuas, mas tenhas certeza que as lições e exemplo ficam. Seria uma boba se não as aproveitasse. Principalmente quanto a aprendermos a carregarmos os fardos que nos são dados, como presentes e com gratidão.
    Te aguardo para ouvir cada palavra tua, com saudades.
    Da irmã
    Mírian

  4. Mírian Rebeca disse,

    3 de Outubro de 2008 @ 17h 40m

    Saulo, enquanto lia pela terceira vez o “Varanasi” sabia que tinha algo que eu queria te escrever. Era a respeito de um texto que aí vai, que de tanto que gostei, acabei copiando-o no meu micro. Isto faz muito tempo… uns 6 anos. Para mim é a resposta para a pergunta que eu mesma fiz a você.

    PERGUNTA: “Crês que precisamos de coisas assim de impacto para termos a verdadeira noção do que é a vida?”

    RESPOSTA: “Servo dos servos de Deus” - Huberto Rohden - Livro “De Alma para Alma”

    “Quando minh’alma chegou à compreensão da verdade, abandonou o palácio de Herodes e foi em demanda do ermo.
    Troquei os lautos festins do tetrarca pelos duros jejuns do austero penitente coberto de pele de camelo.
    Longe dos homens e das humanas seduções, queria eu servir a meu Deus.
    Orando e meditando – passei longos anos na longínqua solidão.
    Só me visitavam os chacais da estepe e umas aves erradias.
    Só me cantavam os ventos do deserto e o murmúrio duma fonte.
    E alguém me segredava ao ouvido: atingiste o cume do monte sagrado!… Vive e morre aqui!… Divinizaste a tua vida, fugindo do mundo e dos homens…
    Mas eis que penetram no ermo longínquo – estranhos rumores… De cidade em cidade, de aldeia em aldeia, andava o mais santo dos homens que à terra viera.
    Descri dos rumores – meneei a cabeça… Se era santo esse homem, por que não fugia do mundo profano?…
    Se era Deus – por que habitava nesse mundo imundo?…
    Descrente, semicrente, deixei o meu ermo e vi esse homem…
    Ouvi dos seus lábios sabedoria suprema.
    - Vive no mundo – dizia ele – sem seres do mundo!
    Não fujas dos homens – porque os homens de ti necessitam!
    Não abandones o enfermo – sê-lhe médico e amigo!
    Não deixes à beira da estrada o ferido viajor – pensa-lhe as chagas, leva-o à estalagem, vela à sua cabeceira!
    Não deixes sem luz e consolo madalenas contritas e zaqueus penitentes!
    Não desdenhes sentar-te à mesa com publicanos e pecadores – por mais que se escandalizem fariseus…
    Fizeste bem, filho meu, em deixar o palácio de Herodes e buscar a Deus na solidão…
    Entraste na escola do espírito, fugindo do analfabetismo da matéria…
    Ingressa agora na academia do Evangelho e vive no meio dos homens para conduzi-los a Deus.
    Não participes do seu materialismo – comunica-lhes tua espiritualidade.
    Não sejas o que eles são – faze-os como és ou desejarias ser…
    Não desças às baixadas do mal – eleva-os às alturas do bem…
    Sê como um raio solar, que penetra em abismos imundos – e deles sai tão puro como entrou…
    Como um raio de Luz, mantém o contato com a fonte – e ilumina o mundo…
    Assim dizia o Mestre – e eu compreendi…
    Deixei o meu ermo, deixei a minha orgulhosa suficiência – e voltei ao meio dos homens…
    Fiz-me servo dos servos de Deus!”

    Saulo, querido irmão de corpo e de alma, se Deus te quisesse lá de corpo e de alma, te faria nascer lá. Mas eu sou grata por “na vastidão do Universo e na imensidade do tempo, partilhar um planeta e uma época com você.”
    Com amor, seja benvindo!
    Mírian Rebeca

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